domingo, 9 de novembro de 2014

Capítulo I

No casulo da intimidade podem ser elaboradas as mais intricadas imaginações. É uma necessidade humana criar um móbil para preencher cada um dos pequenos vazios de sentido que a razão permanentemente nos joga na cara. É possível entregar nas mãos de uma entidade omnisciente e omnipotente o desígnio do Universo, ou seja, do todo que dá forma a todas as coisas. O caso muda de figura nas pequenas razões das mais ínfimas partes que compoêm a vida de um comum mortal. Não há desígnio que justifique os pecados da alma humana. Somos movidos por impulsos sem sentido, regra ou norma, sejam estes de natureza sexual, de ganância, poder ou mesquinhez. A nossa vontade parece ter vida própria e não se compadece minimamente com a incoerência. Esses seres coerentes, capazes de fixar a sua vontade num único e exclusivo horizonte ou meta surgem assim como admiráveis. Já ouvi imensos louvores à coerência, e creio que o leitor também. Estas figuras podem eventualmente merecer mérito, todavia, se sua determinação for inflexível e cega, tudo isto torna-se subitamente assustador. Uma determinação inabalável pode ser de facto perigoso. 

Falo por mim que lido frequentemente com a insansatez dos homens, estejam estes rodeados pela auréola do sucesso, ou carregando o fardo do insucesso. Tolstoi trouxe-nos famílias felizes e infelizes, aqui não vai acontecer o mesmo. Não vou entrar nas vidas familiares dos meus sócios, amigos ou colegas. Afinal, grande parte dos meus nem sequer família tem, e se esta existe, não ligam muito aos seus entes. É a impressão que posso transmitir pois são parcas as palavras que dedicam ao tema. Assim, há todo um universo que ignoro. Todavia posso dizer: há homens felizes na miséria e homens infelizes na graça de Deus. O mesmo para as mulheres. Ora, que quer isto dizer? Há homens e mulheres que aparentam ter vidas preenchidas: objectivos, trabalho, filhos, bens materiais, parceiros...Dostoiéski disse que um homem tem de ter sempre um lugar para onde ir. Esta gente que vos quero falar tem o seu lugar, onde pode adormecer em paz, encaram porém o conforto e segurança com uma nada amistosa sensação de vazio. É aqui que começam os segredos, os caprichos e as aventuras. É neste universo que me mexo. Foi neste que encontrei uma fonte de rendimento e aqueles que confio. Somos obreiros e guardiões de segredos, soldados preparados para proteger as vidas subterâneas de outros. Só posso trazer este mundo a lume. É o único que conheço. O homem que me deu a oportunidade para aqui chegar chama-se Vasco Augusto. Não posso continuar sem dedicar a esta figura algumas linhas. 

Vasco Augusto ao fim de sete anos de confidências consegue ainda me surpreender. Trata-se de um tipo astuto e perspicaz. Não é sempre honesto, mas pode ser incrivelmente generoso com a sua "máfia" que inclui os subordinados directos, como eu, informadores, prostitututas, empresários ou amigos. Gosta dos livros e é um cinéfilo. Aliás, desde que compreendeu que tínhamos algumas afinidades, tem sido uma espécie de mecenas do meu intelecto e cultura. Recomenda-me frequentemente filmes, quase todos a preto e branco. Há honrosas excepções. Descobri com ele a Ponte de River Kwai e um dos melhores do Scorcesse: A Idade da Inocência. Este último foi muito importante para conhecê-lo um pouco melhor. Revelou mais uma faceta desconhecida do meu amigo e chefe. Tenho uma genuína admiração por Vasco Augusto, cada descoberta do seu carácter e personalidade é mais uma face de um diamante, sólido e robusto. É um tipo que soube envelhecer, mantém uma companheira há duas décadas, sem abdicar de salpicar a sua existência com outras mulheres. Foi ele que me contratou. A primeira vez que me viu, foi directo: tu tens talento e quero que trabalhes para mim. Quinze dias depois tornei-me o homem dos registos. Já passaram sete anos e ainda mantenho o livro de contas. Hoje, porém, também trabalho  também como operacional. Depois do Vasco Augusto, sou o que conheço melhor a organização. Nós priveligiamos o lado lunar da alma humana, não posso esquecer a primeira vez que Vasco explicou-me qual é o seu papel. 

Estávamos os dois num clube chamado Instambul situado na zona velha da cidade. Ele pediu uma garrafa de wiskey e solicitou às acompanhantes algum tempo de privacidade para ter uma conversa profissional comigo. Estava eu ainda perplexo porque um tipo da noite queria contratar-me quando foram estabelecidos os termos da nossa relação profissional:
- P. conheci o teu avô. Ele foi amigo do meu pai. Um bom homem. Uma inteligência superior. Quem sai aos seus não degenera. Preciso de um tipo com dois tipos de testa para conduzir melhor o meu negócio. Isto não pode ser tudo feito de cabeça. Há que haver registos, contratos...o sucesso dos Fenícios residia num alfabeto. Eu quero ter um alfabeto no meu negócio. 
- Sr. Vasco...
Ele interrompeu-me para limpar o "Senhor" da conversa. 
- Vasco, eu posso criar esse alfabeto mas primeiro quero saber qual é o seu negócio. 
- O meu negócio! - exclamou com um sorrisinho cínico - O meu negócio são os segredos dos outros. 
- Chantagem? - perguntei. 
Ele sentiu-se insultado e repreendeu-me veementemente:
- Chantagem é para cavaleiros da fortuna! Nós somos de outra estripe. Gente como tu e é não praticamos esse tipo de ignominias. E quero desde já alertar que não aceito de ânimo leve ser insultado. 

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